A dor de uma saudade

No momento em que o navio erguia a âncora,

Lara apoiou-se à amurada e contemplou

demoradamente a cadeia de montanhas

que se recortava, ao longe, num céu pálido

encoberto por nuvens.

Suas pernas estremeceram, as lágrimas começaram

a cair copiosamente de seus olhos... Não sabia

que seus gestos eram observados pelo comandante,

que com uma atenção discreta, disse para si mesmo:

"Ali vive um coração partido;

deixa o porto, mas leva na bagagem lembranças

que lhe cortam a alma. "

Ao voltar-se, Lara encontrou o olhar do ainda

Jovem comandante (cuja admiração lhe amenizava

os olhos soberbos).

Seus lábios tremeram, as pálpebras baixaram durante

alguns segundos, envergonhada pelo semblante

desfeito pela dor.

Apressou os passos e em segundos alcançava

o corredor que a levaria ao aposento, que durante

aquela viagem seria a sua casa.

Prostrada na cama, as lembranças se faziam cada vez

mais presentes e os últimos acontecimentos pareciam

filmes, numa tela que não conseguia apagar. Num gesto

involuntário, levantou, abriu a bolsa e apanhou um

álbum de fotografias. Sentiu medo de abrir; ali estavam

suas melhores e mais doces recordações.

Apertou-o contra o peito e naquele momento desejou

que o mundo acabasse.

Lentamente foi folheando as páginas e em cada uma,

uma dor, uma saudade. A visão, ofuscada pelas

lágrimas, marcava as fotos de uma história de amor.

Precisou fugir de tudo, deixar para trás, o sonho mais

lindo de sua vida, a sua razão de viver, por um motivo

importante; precisava entender e resolver algumas

questões, que aos poucos vinham minando sua

relação; O ciúme incontido e desenfreado.

Dentre as fotos, encontrou uma do passarinho,

que todos os dias, em sua janela bebia água e em

sinal de agradecimento passava horas cantando.

Pequeno gesto, mas que trazia um grande alento

a seu coração. E tudo aquilo remetia, diretamente, ao

amado. As horas de espera, que aquele canto alegrara.

Até o fim da viagem, Lara conservara-se a mesma:

contemplativa, distante, chorosa. O comandante,

que em sua discrição observava, muitas vezes, sentiu

que seu coração havia sido tocado pela imagem,

que era, se não bonita, de uma sensibilidade comovente.

Em vários momentos, sentiu imensa vontade de se

aproximar, oferecer ajuda, o coração... Mas, ela em

sua dor contrita, nada percebia; nada a encantava.

Apenas o desejo incontido de estar de volta.

Saltou no porto, coração apertado. Em seu pensamento

apenas um desejo. Pulsação acelerada... Procurava ansiosa

por todos os lados, quando avistou ao longe,

os lindos olhos de seu amado!

Nenhum comentário: